Mahomes será o líder da próxima grande dinastia da NFL? Não é tão simples quanto parece

Logo após vencer o Super Bowl 54 no último domingo (02) e ser nomeado MVP da partida, Patrick Mahomes já respondia algumas perguntas da mídia no pós-jogo. Como não poderia deixar de ser, logo uma das primeiras perguntas o questionou sobre a possibilidade de estarmos vendo nascer uma nova dinastia na NFL, sob a liderança do QB dos Chiefs.

“É espetacular ver essa dinastia ou o como quer que você queira chamar o que os Patriots fizeram nos últimos 15, 20 anos” respondeu Mahomes. Complementando, o jovem QB seguiu “Para mim, é um ano de cada vez. Nós chegamos perto ano passado. Nós entendemos o quão difícil era chegar nesta posição novamente e encontramos uma forma de chegar ao topo.”

Pat explica bem, em poucas palavras, o quão difícil é atingir o topo da NFL. E o quão difícil, praticamente impossível, se manter neste topo por décadas. Aos olhos dos fãs, do torcedor comum, ter um quarterback do mais alto nível lhe dá as chaves para liderar a liga por anos e anos. É de fato, um ponto importantíssimo, porém não é o único ponto na construção de uma dinastia. Um “rótulo” tão citado, algo que parece bem simples, mas é muitíssimo mais complicado do que parece atingir este nível.

O nível de competição na NFL é o mais apertado de todas as grandes ligas

Pare para pensar e fazer algumas comparações com as outras ligas americanas, veja a disparidade entre os melhores times e os piores. Na NBA, por exemplo, existe uma galáxia entre o Milwaukee Bucks e o New York Knicks. Regras de teto salarial maleáveis, luxury tax, hard cap, bird rights, diversos fatores que podem diferir e influenciar os investimentos das equipes. Além disso, a NBA conta com elencos de 15 atletas, o que dá muito mais importância as grandes estrelas e um desequilíbrio perante as equipes em “construção”, com atletas jovens e de nível mais baixo.

Na MLB temos pouquíssimas restrições de salário. Donos bilionários lideram as maiorias franquias do esporte e não se importam com as penalizações e multas impostas pela liga, podendo construir assim eternas dinastias no esporte, a exemplo do New York Yankees, uma das equipes esportivas mais ricas do planeta. Exatamente hoje (05), os Yankees tem uma folha salarial de 243,9 milhões de dólares por ano contra 45,5 milhões do Baltimore Orioles, menor folha da liga. Inclusive, os Orioles jogam na mesma divisão que os Yankees. Disparidade de investimento absurda. Por isso, sempre vemos os mesmos times chegando ao topo da MLB todos os anos, com algumas raras surpresas pelo caminho.

A NHL é a liga que mais se equipara em questão de igualdade com a NFL, com teto salarial rígido e justo, sempre promovendo um ótimo equilíbrio na liga e apresentando surpresas todas as temporadas. Ai entra o fator elenco, a maior diferença da NFL. No hockey, temos rosters com 23 atletas (apenas 20 podem participar por jogo) contra os rosters de 53 jogadores da NFL. As superestrelas ainda tem maior influência no gelo, contra a busca por um balanço mais exato nos gramados do futebol americano.

Manter elencos balançeados e draftar bem é muito mais difícil do que se parece

Usando como exemplo a dinastia mais atual e conhecida por muitos, a do New England Patriots, podemos pegar alguns pontos essenciais para a construção dessa era. Bill Belichick não tem apego por jogadores, não se perde em brigas de salário. Os Patriots preferem ter cinco jogadores “nota 6”, que fazem bem seu serviço, mas não são nada de espetacular, do que um jogador “nota 10”, um dos melhores em sua posição, mas deixar buracos em outras posições da equipe.

É uma questão de perfeito balanço. Múltiplos jogadores medianos, bem treinados, sabendo exatamente o que devem fazer, oferecem um suporte e uma profundidade de elenco muito maior do que uma mistura de estrelas e jogadores medíocres.

Utilizar bem o draft é outra chave importantíssima, visto que com os contratos menores recebidos pelos jogadores mais jovens, é possível que se tenha maiores investimentos em um grande quarterback (esse sim é peça fundamental e insubstituível, esse tem que ser nota 10!)

No caso dos Chiefs, atualmente a equipe se vê prestes a fazer Patrick Mahomes o jogador mais bem pago da historia da liga. E merecidamente – o que Mahomes é capaz de fazer, antes mesmo de seu auge, é absurdo. Kansas City deve pagar em torno de 40 a 45 milhões por ano ao melhor quarterback da NFL. Agora, pegando os dois melhores wide receivers da equipe, Tyreek Hill (18M/ano) e Sammy Watkins (16M/ano), temos mais 34 milhões ocupados no cap. Somados ao que deve vir a receber Mahomes, totalizamos cerca de 74 milhões de dólares, dedicados a apenas três jogadores.

KC terá que cortar jogadores caros, realizar algumas trades “desfavoráveis”, reestruturar alguns contratos ruins, entre utilizar de outras artimanhas, para manter o elenco forte o suficiente para continuar brigando no topo e vencendo títulos.

Para resumir, o objetivo é o equilíbrio perfeito e praticamente impossível de ser alcançado

O quarterback é mesmo a peça mais importante de uma possível de dinastia, e para isso os Chiefs tem o melhor da liga nesta posição. Mas atingir o balanço ideal entre ataque, defesa, times de especialistas, corpo de treinadores, ter donos e membros superiores da equipe que não se metam nas ações tomadas em campo…é muito, muito complicado e raro.

Peyton Manning não conseguiu construir uma dinastia em Indianapolis. Em alguns momentos, tinha uma defesa fraca. Em outros, o special teams desapontava. Ou o corpo técnico. Teve duas aparições em Super Bowl com os Colts, conquistando o título contra o Chicago Bears em 2007 perdendo alguns anos depois para o New Orleans Saints de Drew Brees. Manning ainda conquistou um título com os Broncos no final da carreira, mas ele nunca esteve próximo de liderar uma dinastia.

O próprio Brees, detentor de tantos recordes e temporadas espetaculares, só tem uma única participação no Super Bowl, exatamente a vitória contra os Colts. Bateu na trave muitas outras vezes, mas nunca esteve realmente próximo do segundo título. Cam Newton era apontado como um futuro líder de dinastia, mas sequer conquistou seu primeiro grande título ainda. Aaron Rodgers, um dos quarterbacks mais técnicos da historia, apenas um título em uma aparição. Russel Wilson, uma vitória e uma derrota, em anos consecutivos, depois mais nada.

Chegar ao jogo mais importante do ano é feito raro. Vencê-lo, é para poucos. Vencer mais de uma vez…então, vamos pisar no freio um pouco quanto a “dinastia Chiefs”. Pode ser que Mahomes e companhia nunca mais chegem ao Super Bowl. O caminho para o Lombardi Trophy é árduo, complicado e sempre apresenta obstáculos. Até os maiores de todos os tempos apresentam falhas. Patrick Mahomes tem um longo caminho até poder começar a ser citado no mesmo nível de Tom Brady, Joe Montana e Terry Bradshaw, os três verdadeiros líderes de dinastia da historia da NFL.

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