Jogadas históricas: Relembre a interceptação de Malcolm Butler no Super Bowl XLIX

Fazia uma década que o New England Patriots não sabia o que era conquistar um Super Bowl. Jogadas milagrosas nos dois duelos contra o New York Giants colocaram um sabor amargo na boca dos torcedores dos Pats. E o mesmo final melancólico e chocante parecia estar acontecendo novamente com a equipe de Boston nos minutos finais do duelo diante do Seattle Seahawks.

Porém, no momento derradeiro da partida, aconteceu a jogada que ficou eternizada na memória de todos que assistiram o Super Bowl XLIX – uma reviravolta digna dos finais de filme mais chocantes de todos os tempos.

Malcolm Butler, até então um desconhecido, colocou números finais na partida com uma interceptação em cima de Russell Wilson, na goal line, nos últimos segundos daquela final. New England se tornava campeão pela 4ª vez em sua historia.

O contexto

A jogada “perfeita” de Butler é a imagem que todos se recordam. Mas muitos outros detalhes tornaram esse momento possível.

Primeiramente, Butler supostamente nem participaria do jogo. Último reserva na posição de cornerback dos Patriots, o rookie não draftado havia participado de menos de 17% dos snaps defensivos da equipe no ano. Na final de conferência, não pisou uma única vez no gramado.

O titular Kyle Arrington teve uma performance abismal no primeiro tempo e foi ominado pelo desconhecido Chris Matthews. O CB foi para o banco de reservas deu lugar a Butler, que teria a responsabilidade de cobrir o bom Jermaine Kearse, enquanto Brandon Browner, mais físico, tomaria conta do alto Matthews.

O segundo tempo parecia ter apenas um time em campo. Um domínio amplo defensivo do Seattle Seahawks. Tom Brady, mais uma vez com as costas para a parede, liderou uma clássica virada no último quarto.

Perdendo por 24×14, Brady comandou duas campanhas consecutivas finalizadas em touchdown, finalmente quebrando a “impenetrável” defesa de Seattle naquele segundo tempo. Dois passes para TD, um para Danny Amendola e outro para Julian Edelman, e assim, New England liderava o placar por 28×24.

Os Seahawks, liderados por Russell Wilson, marchavam pelo campo em busca da virada nos minutos finais. E aí, mais uma vez, os torcedores dos Pats sentiram uma adaga penetrar seus corações.

Malcolm Butler realizou uma linda quebra de passe, numa rota profunda destinada para Jermaine Kearse…ou quase realizou. A bola pipocou no ar, nas pernas de Kearse, mas nunca tocou o solo. Recepção absurda, com todo toque de sorte do mundo, e Seattle se colocava a 6 jardas da virada e do título.

A adaga que feria os torcedores de New England, ali, se multiplicava por três. Nos dois Super Bowls anteriores, a equipe sofreu da mesma forma, com a “Helmet Catch” de David Tyree e depois com uma recepção extraordinária de Mario Manningham. O destino parecia querer machucar os Patriots da pior forma possível.

Até…até a jogada que explicaremos aqui. Um “plot twist” digno de Hollywood. O ato de um herói desconhecido. Senhoras e senhores, Malcolm Butler e a interceptação decisiva do Super Bowl XLIX. Mérito apenas dele? Chamada equivocada dos Seahawks? Vejamos aqui o lance em todos seus detalhes:

Desenho da jogada derradeira do Super Bowl XLIX. Destacados estão Ricardo Lockette e Malcolm Butler. (Imagem: Reprodução/ YouTube NFL)

Aqui o desenho da jogada decisiva desta partida. Ricardo Lockette, o alvo de Russel Wilson, tem marcação “mano a mano” de Butler, distantemente. O conceito desta chamada ofensiva é um dos mais antigos da NFL.

A “pick route”, nada mais é do que a execução de um simples corta-luz. O recebedor do lado ‘interno’ tem a responsabilidade de criar o espaço para o recebedor externo cortar para dentro com liberdade.

O responsável por isso, neste caso, era Jermaine Kearse. Sua obrigação na rota era ganhar de Brandon Browner “na força”, o empurrando para trás e atrapalhando totalmente a cobertura de Butler.

Do outro lado da rota, temos o mesmo conceito, porém o foco estava nos dois recebedores que estão “embaixo” na imagem. As rotas percorridas pelos outros recebedores são um mero chamariz, para atrapalhar a defesa. É uma jogada de execução rápida, sem tempo para deixar as rotas se desenvolverem.

No lado defensivo, um “package” simples, porém utilizado pela primeira (e única) vez apenas na temporada toda por New England. A linha defensiva recheada com oito jogadores para pararem uma possível corrida e apenas três defensive backs, responsáveis por cada um dos três wide receivers de Seattle.

No primeiro momento pós-snap, Brandon Browner bloqueia o corta luz de Jermaine Kearse; momento chave para o desenrolar da jogada. (Imagem: Reprodução/YouTube NFL)

Provavelmente não estaríamos aqui contando esta historia se não fosse pelo senso e consciência de jogo de Brandon Browner. Durante toda a jogada, desde antes do snap, Browner estava um passo a frente dos Seahawks. Talvez por já ter jogado na equipe e, provavelmente, ter treinado muito a “pick route”. Ele sabia o que estava por vir.

Momentos antes do snap, Browner se comunica com Malcolm Butler. Ele reconhece a formação e ele sabe exatamente a função que devia exercer ali. Alinhado proximamente a Jermaine Kearse, no momento do snap, ele tem a reação perfeita.

Browner anula o corta-luz de Kearse, instantaneamente esticando seus braços contra o peito do camisa 15 de Seattle, impossibilitando que ele criasse espaço para o desenvolvimento da jogada. O camisa 39 dos Pats era, provavelmente, o cornerback mais físico e forte da NFL na época. Empurrá-lo, ter alguma vantagem de força sobre ele era algo muito raro.

Com a parte de Browner sendo perfeitamente executada, Lockette perde tempo na rota e precisa “contornar” de uma forma não tão esguia, por trás de seu companheiro. Enquanto isso, Butler, sem ser atrapalhado, já parte em direção da rota de Lockette, com muito mais agilidade e “momento”.

O momento final da jogada. Malcolm Butler corta perfeitamente a rota de Ricardo Lockette e intercepta o passe de Russell Wilson. (Imagem: Reprodução/YouTube NFL)

Analisando pausadamente, friamente, vemos até aqui que a jogada se desenrolava de uma forma boa para os Patriots. O corta-luz não havia sido executado, Butler tinha todo o espaço do mundo para cortar a rota de Lockette…porém, mesmo assim, o lance decisivo desse Super Bowl foi disputado. Um lance clássico que poderia ir para qualquer lado.

Fez muita diferença o caminho limpo de Butler, em direção a bola. O primeiro passo ágil do novato lhe deu muita vantagem sobre Lockette, que precisou “driblar” seu próprio companheiro. A execução defensiva de New England foi perfeita e os papéis na jogada, foram invertidos.

Wilson lança um laser no meio da endzone, buscando seu recebedor. Não foi um passe ruim, não foi no colo de Butler. Um passe perfeitamente recebível.

Porém, Butler chega no lance com extrema agilidade e força, como uma bala. No momento em que seu corpo se choca com o de Lockette, derrubando-o, ele entra perfeitamente na trajetória da bola, que se encaixa em seu peito. Logo após isso, ele cai na marca de 1 jarda, com a bola nas mãos.

A reviravolta estava completa. A virada de Tom Brady naquele quarto período não seria esquecida. O tackle salvador de Dont’a Hightower, derrubando Marshawn Lynch “na cara do gol” na jogada anterior a interceptação, teria importância infinita. Os Patriots, finalmente, voltavam a vencer um Super Bowl.

A chamada ofensiva foi correta?

Imediatamente após o término do Super Bowl XLIX, o mundo tentava entender a decisão de Pete Carroll. Abdicando de utilizar Marshawn Lynch, o running back mais físico da NFL, em seu auge, a uma jarda da endzone e da virada. Uma decisão equivocada, sem dúvidas, mas Carroll teve também seus motivos.

Lynch estava tendo um bom jogo, mas em duas situações anteriores de 3rd downs para uma jarda, ele foi neutralizado pela linha defensiva de New England. Embora extremamente físico e uma máquina de TDs, Marshawn era um dos corredores com menor porcentagem de conversão em situações de uma jarda para o touchdown.

Talvez o treinador de Seattle tenha pensado demais. Bill Belichick, do outro lado, foi frio como um iceberg. Preferiu deixar o relógio rolar, não usar seu timeout. Em suas próprias palavras, ele afirma ter visto “a confusão dos Seahawks no momento”. Russell Wilson parecia não entender muito bem a chamada, os treinadores da equipe estavam agitados com substituições ocorrendo no momento.

Belichick confiou em sua defesa e Carroll quis surpreender demais. Se o passe fosse incompleto, os Seahawks ainda teriam mais duas chances para andar aquela uma jarda. Aliás, nesta exata situação, durante a temporada 2014 da NFL, 109 passes foram realizados. Apenas um foi interceptado. A jogada não oferecia grandes riscos, parecia aquelas chamadas “100%”, que te garantem algo positivo no lance. Porém, não foi bem assim que aconteceu…

Os Patriots estavam preparados contra a “pick route”

Na semana do Super Bowl os Pats treinaram a mesma jogada realizada pelos Seahawks. E Malcolm Butler não encontrava formas de parar a rota. (Imagem: Reprodução/YouTube NFL)

Quando dizem que a equipe de Bill Belichick sempre está preparada para todas situações possíveis, acredite. E tome esta jogada decisiva no jogo mais importante do ano, como exemplo.

New England não utilizava a “pick route” em seu playbook ofensivo com frequência. Durante a temporada, o time não teve problema com a jogada. Porém, na semana final de preparação para o SB XLIX, os scouts apontaram o lance como uma arma dos Seahawks.

Prontamente, Belichick executou a jogada nos seus treinos, exaustivamente. Kyle Arrington, Patrick Chung e Malcolm Butler, revezavam na cobertura do recebedor externo. Butler parecia ter dificuldades, sendo “queimado” muitas vezes.

Ao longo da semana, com as dicas de seus treinadores defensivos, Malcolm foi se adaptando a difícil cobertura desta rota, tentando forçar um maior contato contra o adversário. E no grande jogo, no grande dia, parece que Butler finalmente estava “lapidado” para cobrir esta jogada.

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